A proibição já levou 23% dos empregos do setor no Brasil

Trabalhos Apostas

Há um número que permite dimensionar o restante. A Associação Nacional de Jogos e Loterias contabilizou, até 13 de outubro, a eliminação de mais de 3.500 postos de trabalho no setor de apostas, destacando que esse corte equivale a 23% de toda a força de trabalho da atividade. Dessa proporção depreende-se o tamanho do universo afetado: se 3.500 pessoas representam 23%, o quadro total girava em torno de 15.200 profissionais.

Com base nisso, os números seguintes mudam de escala. Aos desligamentos já consumados somam-se 4.167 trabalhadores em férias coletivas, um recurso que, na prática, costuma anteceder a demissão. Somados, os 7.667 colaboradores atingidos representam cerca de 50% do quadro total, o que significa que metade do setor está hoje fora de suas funções ou com o contrato suspenso. A projeção da própria entidade aponta para 5.600 demissões em três meses, o equivalente a 37% do contingente original.

O perfil salarial explica por que o impacto não se limita à contagem de cabeças. Segundo dados da LCA Consultores, a cadeia produtiva das apostas pagava em 2025 um salário médio de R$ 7.000, e a maioria absoluta de seus trabalhadores recebia mais de quatro salários mínimos. Com essa média, os 3.500 postos já extintos representam cerca de R$ 24,5 milhões em massa salarial mensal que deixou de circular, sem contar encargos nem o impacto no consumo local nas cidades onde essas empresas têm sede.

O efeito cascata também não se restringe às casas de apostas. A paralisação atinge o esporte, o entretenimento, a comunicação, a publicidade, a tecnologia e a inovação — isto é, os fornecedores que faturavam prestando serviços a um mercado que parou de operar de um dia para o outro. Esse é o segmento mais difícil de mensurar, pois não aparece na contagem setorial da ANJL e suas demissões são registradas em outros ramos de atividade.

O contexto político desses números é o que lhes confere peso. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou na quinta-feira, 22, durante uma transmissão pelo YouTube com o deputado federal André Janones e a influenciadora Nath Finanças, que o veto não terá recuo. "Não voltará mais a bet. Quem quiser ganhar dinheiro, vai trabalhar", declarou, em uma fala que soa desconfortável diante de um corte de empregos formais dessa magnitude: a declaração convida a trabalhar um setor que acabou de perder metade de seus postos por decisão administrativa.

Nada disso é definitivo ainda. A medida provisória 1.394, assinada em 25 de setembro, impede a exploração comercial, a intermediação de pagamentos e a publicidade de operadoras de apostas esportivas e de cassino online. O texto tem força de lei e está em pleno vigor, mas precisa do aval do Congresso Nacional para se tornar definitivo e enfrenta ações no Supremo Tribunal Federal sob a relatoria de Luiz Fux, que pautou sua decisão para depois do segundo turno. O emprego, por outro lado, já sofreu o ajuste.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias é a entidade que reúne operadoras de apostas e loterias que haviam obtido autorização no mercado regulado brasileiro, e é uma das autoras das ações diretas de inconstitucionalidade contra a medida provisória. A LCA Consultores é uma consultoria econômica brasileira que desenvolve estudos setoriais sobre o mercado de trabalho e a atividade produtiva.

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