Bancos fecham cerco a fraudes e apostas ilegais sob novas regras

Bancos fecham cerco a fraudes e apostas ilegais sob novas regras

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) anunciou a implementação de diretrizes rigorosas para o fechamento de contas utilizadas em fraudes e para bloquear fluxos financeiros vinculados a apostas ilegais. O movimento visa uniformizar os procedimentos das instituições financeiras diante de operações suspeitas relacionadas ao ecossistema iGaming, em linha com a crescente pressão regulatória no país. O enfoque prioriza a mitigação de riscos em pagamentos instantâneos, wallets e gateways utilizados por operadores sem autorização. Com essa decisão, o setor bancário brasileiro busca fechar brechas operacionais que historicamente foram exploradas por redes de golpes e por plataformas de jogo não licenciadas.

Segundo as diretrizes divulgadas, os bancos deverão aplicar critérios reforçados para o offboarding de clientes recorrente associados a transações incompatíveis com seu perfil, sinais de fraude ou vínculos com apostas fora do marco regulado. As medidas incluem a padronização de processos internos para registrar evidências, notificar os clientes e reportar operações suspeitas às autoridades competentes, além de fortalecer o monitoramento de transferências que canalizem fundos para sites não autorizados. O documento também impulsiona mecanismos de coordenação com instituições de pagamento e fintechs para evitar a reabertura de contas ou a reativação de rotas de pagamento utilizadas pelos mesmos beneficiários. No âmbito operacional, destaca-se um enfoque baseado em risco, com controles de KYC e AML mais profundos e o uso de listas internas de bloqueio e verificação de contrapartes.

A Febraban, que congrega as principais entidades financeiras do país, tem sido um ator central na adoção de melhores práticas de segurança, prevenção de fraudes e padronização de procedimentos na indústria bancária. A federação coordena com o Banco Central do Brasil em temas de compliance e na evolução do sistema de pagamentos instantâneos, como o PIX, para elevar a resiliência do ecossistema frente a crimes financeiros. No passado recente, o sindicato promoveu campanhas e protocolos para mitigar golpes em massa e roubo de identidade digital, um vetor que também é explorado por operadores clandestinos. As novas diretrizes se inserem nesse histórico de iniciativas, mas com foco explícito na interseção entre banca, pagamentos e o segmento de apostas online.

O contexto regulatório brasileiro endureceu desde a promulgação da Lei 14.790/2023, que estabeleceu as bases para a regulação das apostas de quota fixa e do jogo online, e delegou ao Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas, a emissão de normativas técnicas e de cumprimento. Paralelamente, a infraestrutura de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo exige das instituições financeiras monitoramento transacional, relatórios de operações suspeitas e políticas de due diligence, coordenadas com o COAF. O Banco Central do Brasil, por sua vez, fortaleceu diretrizes para instituições de pagamento e supervisiona o uso responsável do PIX frente a esquemas fraudulentos, incluindo a rastreabilidade e bloqueios preventivos quando cabíveis. Nesse ambiente, as diretrizes da Febraban funcionam como uma ponte entre o marco legal e a execução operacional na linha de frente dos pagamentos.

Para o setor iGaming, as implicações são diretas: operadores licenciados se beneficiarão de uma rota de pagamentos mais limpa e previsível, enquanto sites não autorizados enfrentarão maiores atritos para processar depósitos e saques. Provedores de pagamento, adquirentes e fintechs deverão reforçar seus modelos de onboarding e monitoramento de merchants, aplicando segmentação de risco específica para jogos e apostas, e verificando o status regulatório de cada operador. Afiliados e redes de marketing terão que revisar acordos comerciais para assegurar a derivação de tráfego apenas para marcas com permissão, mitigando exposição a bloqueios bancários. Ao mesmo tempo, a banca deverá equilibrar a redução de falsos positivos com o dever de reporte, estabelecendo canais de apelação claros e rastreáveis para clientes legítimos cuja atividade seja confundida com padrões de alto risco.

No futuro, espera-se maior integração tecnológica entre bancos, instituições de pagamento e autoridades, com listas de operadores autorizados e não autorizados acessíveis via APIs para validações em tempo real. A Secretaria de Prêmios e Apostas deverá continuar publicando normas complementares e cronogramas de licenciamento, o que facilitará a criação de whitelists para a indústria de pagamentos. Também é previsível uma intensificação da cooperação transfronteiriça para frear o uso de gateways offshore e estruturas de elisão, em linha com tendências observadas na Europa e América Latina. Na medida em que as diretrizes da Febraban se consolidem, o mercado tenderá a uma maior formalização, com investimento reforçado em tecnologia de compliance, análise comportamental e autenticação forte, elementos que serão diferenciais competitivos para operadores e PSPs que busquem escala sustentável no mercado brasileiro.

Etiquetas: Brasil, Febraban, Apostas ilegais