Os vendedores da Loteria Nacional do México reclamaram da Lotenal
A Loteria Nacional do México enfrenta uma tensão interna que evidencia as rachaduras deixadas pela migração do jogo para o canal digital. Esta semana, os vendedores tradicionais de bilhetes físicos, conhecidos como "billeteros", organizaram protestos em vários pontos do país para denunciar a queda de suas receitas e reivindicar melhorias em suas comissões. A mobilização, que chegou à sede da Lotenal na Cidade do México e à agência principal de Tuxtla Gutiérrez, marcou um ponto de inflexão em uma tensão que vinha se acumulando há anos entre o formato impresso, com mais de três séculos de história, e o avanço imparável dos aplicativos móveis, redes sociais e sorteios digitais.
O cerne da reivindicação é econômico. Os billeteros de Chiapas asseguram que suas receitas caíram entre 30 e 80 por cento nos últimos anos, um retrocesso que eles vinculam diretamente à expansão das vendas online e à chegada de empresas estrangeiras ligadas a jogos e sorteios digitais. A representante da categoria em Tuxtla Gutiérrez, María Cruz Ventura Castillejos, explicou que naquela cidade restam cerca de 20 vendedores ativos, quando há alguns anos eram mais de 30 e inclusive superaram os 100 em outros períodos. Muitos abandonaram a atividade porque deixou de ser viável como meio de vida.
Comissões congeladas há mais de três décadas
O outro eixo da reivindicação aponta para a própria estrutura do negócio. Os manifestantes pedem um aumento de 2 por cento nas comissões que recebem pela venda de bilhetes, que atualmente se situam em 10 por cento. Segundo a categoria, essas comissões não são atualizadas há mais de três décadas, um dado que contrasta com a inflação acumulada e com o aumento de custos e impostos que os vendedores enfrentam em sua operação diária. O paradoxo é claro: enquanto a Lotenal moderniza sua oferta e adiciona canais digitais, a cadeia humana que sustentou o negócio por gerações ficou congelada em condições de trabalho do século passado.
Da marcha na Reforma ao diálogo institucional
Os protestos não se limitaram ao sul do país. Na Cidade do México, integrantes da categoria bloquearam por aproximadamente uma hora a Avenida Paseo de la Reforma, em frente aos escritórios da Loteria Nacional, para denunciar problemas relacionados ao fornecimento de bilhetes impressos e à queda das vendas. A ação direta acabou forçando uma resposta institucional. Após a mobilização, as autoridades concordaram em instalar uma mesa de diálogo para atender às reivindicações do setor, uma via que abre a possibilidade de revisar tanto o esquema de comissões quanto as condições de abastecimento de bilhetes físicos em todo o território mexicano.
Durante o protesto em Chiapas, os billeteros marcharam até a agência central da Loteria Nacional e advertiram que o avanço das vendas digitais poderia levar ao desaparecimento do vendedor tradicional. "Os bilhetes físicos já quase não estão sendo vendidos", afirmou Ventura Castillejos, que também defendeu o valor histórico e cultural da Lotenal, instituição com mais de 300 anos de história no México. O argumento do peso simbólico aparece como uma das últimas trincheiras do modelo presencial frente a um consumidor que cada vez compra mais bilhetes pelo celular e através de redes sociais.
O caso mexicano ilustra uma tensão que percorre as loterias de toda a América Latina. A Argentina debate a transformação de suas agências em um processo impulsionado pelas loterias provinciais, a Colômbia avança com a digitalização da Coljuegos e das loterias regionais, e o Brasil redesenha completamente seu mercado com a regulamentação das apostas online. Nesse cenário, a conflitividade dos vendedores tradicionais mexicanos funciona como uma antecipação dos custos sociais que implica o salto para o jogo digital e como um alerta para os reguladores da região, que deverão pensar em como acompanhar a transição sem deixar para trás as redes humanas que sustentaram o negócio por décadas.
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