Eliane Nunes - Head of Revenue & Commercial Growth na Atucha Strategic Advisory

Eliane Nunes - Head of Revenue & Commercial Growth na Atucha Strategic Advisory

Eliane Nunes – Head of Revenue & Commercial Growth, Atucha Strategic Advisory

Nos últimos anos, Eliane atuou em posições de liderança comercial e de parcerias em ambientes B2B complexos, com forte foco no mercado regulado brasileiro. Sua experiência passa por desenvolvimento de parcerias estratégicas, account management, marketing, comunicação interna, branding e posicionamento de mercado, sempre operando como ponte entre times comerciais, técnicos, regulatórios e executivos.

Mais do que cargos, no entanto, o que marca sua trajetória é a forma como enxerga liderança. Para Eliane, técnica se aprende, mas valores não. Escuta ativa, presença real, decisões difíceis quando necessárias e respeito pelas pessoas são pilares que atravessam sua atuação profissional. Em um setor cada vez mais orientado por tecnologia, ela defende que inovação sustentável nasce da diversidade de repertórios, da convivência entre gerações e da capacidade de liderar sem perder humanidade.

Fora do script corporativo, Eliane carrega referências culturais fortes, humor afiado, paixão por gente e uma relação honesta com suas próprias escolhas, sucessos e erros. Nesta entrevista, ela fala sobre infância, carreira, dilemas éticos, liderança feminina, legado e futuro, com a mesma franqueza com que construiu sua trajetória: sem atalhos fáceis e sem abrir mão de quem é.

Conversamos com Eliane Nunes para conhecer mais sobre sua trajetória, sua visão sobre a evolução do iGaming no mercado brasileiro e o lado humano por trás de uma executiva que hoje desempenha um papel fundamental na estratégia de parcerias e novos negócios no setor, em uma nova edição de Mais que um Jogo.

A Origem

Onde você nasceu?

Nasci em Santos, no litoral de São Paulo, mas é bom deixar claro que sou muuuuuito Corinthiana :-)

Se hoje você pudesse caminhar pelo bairro onde cresceu quando criança, do que se lembraria?

Ainda ando por lá com certa frequência já que meu pai mora na mesma casa para a qual nos mudamos quando eu tinha 7 anos. Lembro como eu costumava andar descalça ou tomar banho de chuva no antigo quintal de caquinhos nas tardes de verão.

Se pudesse voltar no tempo para esses anos, o que gostaria de estar fazendo?

Sempre com o meu irmão Fernando, um desses banhos de chuva ou patinar no quintal encerado tingindo de vermelho as meias brancas do uniforme escolar. Já na adolescência, uma manhã pegando onda de bodyboard na praia da Divisa com a amiga/irmã/comadre Renata.

Que parte dessa criança ainda está presente na sua vida?

Na capacidade de me encantar com coisas simples e corriqueiras como um nascer do sol, o barulho do mar, a troca de gentileza entre pessoas. E mais. Eu ainda nasci e cresci num mundo analógico e sempre me pego boquiaberta com a evolução científica e tecnológica.

Com o que essa criança sonhava trabalhar quando crescesse?

Quando eu estava na quinta série mais ou menos o mundo tinha recém dado nome à AIDS e eu dizia que ia fazer Bioquimica e que iria descobrir a cura para a síndrome. Aí depois eu de fato conheci o que era estudar Química e afins e cheguei à conclusão que meu negócio era mesmo com as Ciências Humanas.

Trajetória Profissional

Qual foi o seu primeiro trabalho remunerado?

O primeiro mesmo foi um “bico” vendendo ingressos para um show da apresentadora de TV Xuxa que aconteceu em outubro de 1988 no Estádio da Vila Belmiro em Santos. Era num quiosque na frente do Shopping Miramar e eu usava um boné cor-de-rosa com duas tranças loiras. Como diz o vídeo/meme que viralizou no Brasil, que “xou da Xuxa” é esse?

Qual foi o seu primeiro trabalho no mundo das apostas/jogos de azar?

Eu trabalhava na Clarion Events Brasil e a partir de 2016 o escritório local passou a colaborar com a Clarion Gaming na organização do evento Brazilian Gaming Congress (BgC). Eu era a responsável direta pela produção dos paineis do congresso a partir de 2017 e foi quando eu entendi que essa indústria seria a minha “casa”.

O que você mais gosta nesta indústria?

As pessoas e a “vibe” da indústria de um modo geral. É um negócio sério, com muitos processos, regras, regulamentação, mas que ao mesmo tempo tem muito espaço para networking descontraído (e até desinteressado), com conexões e trocas reais. Claro que nem tudo é perfeito e às vezes, como em qualquer setor, o lado humano toma um baque e se decepciona, mas ainda assim vejo um caminho razoavelmente seguro para, às vezes, me permitir “caminhar descalça” como a criança que andava em Santos sem se preocupar com espinhos ou cacos de vidro.

Quais tendências marcarão o futuro das apostas nos próximos 5 anos?

Eu entendo que para o mercado regulado ter futuro, em tese, sabemos que é preciso: 1) combater o mercado ilegal (e não penalizar o mercado legal com regras e impostos que inviabilizam o negócio); 2) entender que estratégia data-drive tem que ser de verdade: ler o mercado e garantir que as preferências do mercado retroalimentam os produtos; 3) localização, localização e localização!

O que mais te preocupa em relação ao vício em jogos (ludopatia)?

Sem dúvida, é essencial regular com mais rigor o conteúdo nas redes sociais e a atuação de influenciadores, especialmente quando a comunicação associa apostas a promessas de ascensão social ou “mudança de vida”. Esse tipo de discurso é sensível e precisa de limites claros. Recentemente, Márcio Falcão, da Casa de Apostas, trouxe um ponto fundamental ao debate: não são as plataformas de apostas que concedem crédito ao jogador compulsivo. Quem concede crédito de forma ampla, muitas vezes irresponsável, é o sistema bancário, sem qualquer compromisso real com a capacidade de pagamento do consumidor, o impacto dos juros sufocantes, e o agravamento do endividamento estrutural.

Ou seja, tratar a ludopatia exclusivamente como um problema das bets é simplificar demais uma questão que envolve educação financeira, política de crédito, comunicação responsável e corresponsabilidade institucional. Se o debate não for sistêmico, atacamos o sintoma e ignorarmos a causa.

Se tivesse que escolher um chefe que marcou sua trajetória profissional, quem seria?

Minha trajetória, sobretudo no iGaming, tem sido muito mais marcada e influenciada por colegas do que por gestores. Não vou citar nomes porque são muitas pessoas que inspiram o meu dia-a-dia e ajudam a compor, cada uma com um toque, a meta de profissional que eu quero ser.

Qual foi o melhor conselho profissional que você já recebeu?

Vale conselho ao contrário? Uma vez ouvi de um chefe que “quem carrega piano nunca será pianista”. Aquilo marcou, e não era sobre limites de cargo, mas sobre ausência de cuidado. Aprendi ali que liderança, para mim, é o oposto disso: é estar presente, saber tocar o piano, ajudar a carregá-lo quando preciso e garantir que o concerto aconteça.

Se tivesse que resumir sua filosofia de liderança em apenas uma frase, qual seria?

Liderar é criar um ambiente de escuta real, com disposição para baixar a guarda e ouvir de verdade, não apenas esperar a vez de responder. E não vale essa conversa de que o dia-a-dia é corrido. Comunicação torta é receita para retrabalho. Isso sim é perda de tempo. Olhar nos olhos e ouvir de verdade, não.

O que você mais valoriza em um trabalho, além do salário?

Um ambiente colaborativo e humano onde a busca por excelência e resultados não seja a qualquer custo.

Se não tivesse trabalhado nesta indústria, que outra profissão gostaria de ter exercido?

Sempre me senti especialmente ligada ao Terceiro Setor, nas frentes de educação ou meio ambiente. Já sonhei trabalhar na Fundação Ayrton Senna ou mesmo no Green Peace.

Ping-Pong de Perguntas

Um livro que você recomendaria?

Pequeno Manual Antirracista (Djamila Ribeiro, Brasil, 2019)

Um filme que te marcou?

A Via Lactea (Lina Chamie, Brasil, 2007)

Uma comida preferida?

Baião de Dois (o que eu faço)

Vinho ou cerveja?

Aperol Spritz :-), mas se tiver que escolher, cerveja

Um lugar no mundo para viver?

Itália

Um sonho pendente?

Ter um carro híbrido

Um hobby ou paixão fora do trabalho?

Karaokê, jogos de tabuleiro, coquetelaria

Uma personalidade que você admira?

Luiza Erundina

Trabalho no escritório ou em casa?

Em casa

Um dia de praia ou no campo?

Se tiver piscina, lago ou cachoeira, definitivamente campo!

Empregado ou empreendedor?

Colaboradora

Líderes nascem prontos ou se tornam líderes?

As duas teses são válidas, mas só funcionam com humildade para ouvir e rever certezas.

Família & Amigos

Se seus pais tivessem que te descrever sem mencionar seu cargo ou suas conquistas, o que diriam de você?

Que sou inquieta, dedicada e muito questionadora. Que não gosto de injustiça, que não me acomodo e que sempre opto pelo caminho que acredito ser o certo, ainda que geralmente seja o mais difícil.

Como seus amigos te descreveriam?

Como alguém leal, confiável, humana, divertida e que tem um dos melhores “abraços de urso do planeta”

Quem é aquela pessoa que ainda se atreve a te dizer "você está errado" quando todos os outros dizem que sim?

Meu parceiro de vida, Flavio; meu irmão Fernando; e minha melhor amiga (irmã), Patrícia.

Quanto a sua família influenciou para que você pudesse estar onde está hoje?

Minha base familiar sempre foi simples e afetiva. Nunca tivemos luxo, mas tivemos inclusive além do essencial, o que é um privilégio em um país desigual como o Brasil, além de acesso a educação de boa qualidade. Meu pai certamente poderia ter tido mais se tivesse flexibilizado valores como a honestidade, mas nunca fez isso, e eu não poderia ser mais grata por esse exemplo de conduta de vida.

Para qual pessoa, que está longe ou que já não está fisicamente presente, você gostaria de dar um abraço? O que diria a ela?

Abraçaria o cantor e compositor brasileiro, Renato Russo (1960-1996). Agradeceria por tantas músicas/poesias que sempre farão parte da minha trilha sonora e da de tantas outras pessoas. Pediria desculpas por não ter estudado Bioquímica e descoberto a cura da AIDS, como eu sonhava quando criança. Mas também comemoraria com ele o quanto a medicina avançou e diria que, se fosse hoje, ele provavelmente ainda estaria nos palcos, cantando e tocando vidas. E que, apesar dos muitos desafios que ainda existem em termos de respeito à diversidade, hoje ele seria mais livre para transbordar aquele tanto de amor que sentia.

Sucessos e Fracassos

O que você diria para a sua versão mais jovem que, em algum momento, estava sofrendo ou prestes a desistir?

Nem tudo é sobre você, e cada pessoa carrega suas próprias batalhas. Mas empatia não significa invalidar o impacto do fogo cruzado sobre a sua própria vida.

Qual foi a decisão mais difícil que você tomou na sua carreira e o que aprendeu com ela?

Foi sair de um trabalho de forma abrupta depois que uma gestora colocou em dúvida uma questão moral relacionada a mim, algo que considerei inaceitável. Superestimei minha capacidade de recolocação imediata e atravessei uma situação financeira crítica, na qual precisei da ajuda de familiares e amigos. Olhando em retrospecto, sei que poderia ter agido com mais inteligência emocional. Ainda assim, reconheço que aquela decisão também foi uma forma de preservar meus valores. Com o tempo, enfrentei situações ainda mais estressantes, nas quais a inteligência emocional conseguiu prevalecer, mas aquela escolha segue como um marco importante sobre limites e integridade.

Qual foi a sua maior conquista e o que ela significou para você?

Depois de um longo processo seletivo, ganhei uma bolsa da Fundação Rotary e passei praticamente o primeiro semestre de 1999 morando e estudando inglês em Atlanta, GA, EUA. A bolsa inicial era de três meses e, graças à minha mãe, que vendeu o único pequeno apartamento que possuía para que eu pudesse permanecer mais dois meses estudando, consegui voltar ao Brasil com fluência no idioma. Foi o meu primeiro passaporte, primeiro visto, primeiro carimbo e, na verdade, a primeira viagem de avião. Além da aprendizagem do idioma, foi um marco pessoal, uma experiência de autonomia e convivência com múltiplas culturas. Foi ali que entendi o quanto eu poderia ir longe. Também carrego comigo o exemplo de coragem, generosidade e da defesa incondicional da educação da minha mãe, que sempre acreditou que qualquer esforço valeria a pena para que eu e meu irmão tivéssemos oportunidades que ela não teve.

O Legado

Onde você se vê em 5 ou 10 anos?

Certamente em projetos que façam diferença no iGaming, trabalhando e liderando com propósito, autonomia e impacto, cercada de gente boa e competente, com tempo para viver além do trabalho e espaço e disposição para continuar aprendendo.

Como você gostaria de ser lembrado?

Como uma mulher ética, justa, divertida e genuinamente fascinada por gente. Uma pessoa que ouviu de verdade, respeitou as pessoas e nunca abriu mão dos próprios valores, independentemente do cargo que ocupou.

Se tivesse que dar um conselho de vida para outra pessoa, qual seria?

Não negocie seus valores para caber em lugares que não te respeitam. Mas não chute nem bata a porta. Feche-a com classe, com estratégia, e não esqueça de jogar a chave fora :-)

Qual pergunta nunca te fizeram em uma entrevista e que você gostaria de responder?

Como o setor de iGaming lida, na prática, com liderança feminina? Não apenas no iGaming, mas a verdade é que muitas vezes ainda somos interrompidas em reuniões e nossa sensibilidade para temas críticos muitas vezes é confundida com fraqueza. Iniciativas como a AMIG têm sido fundamentais para ampliar visibilidade e diálogo, mas ainda há um caminho importante a percorrer. E seguimos nessa estrada do nosso jeito, com salto alto e batom, ou não.

Qual colega da indústria você gostaria de ver respondendo a esta entrevista?

Luis Felipe Maia, Celina Guedes, Gina Macheri