A proibição brasileira já causou 3.500 demissões em quatorze dias

Catorze dias após o decreto que ilegalizou as apostas online no Brasil, o setor já contabiliza mais de 3.500 demissões. O número foi levantado pela Associação Nacional de Jogos e Loterias e representa 23% de um quadro de funcionários que a entidade estima em 15.000 pessoas, um universo que inclui também fornecedores e prestadores de serviços. A isso somam-se 4.167 trabalhadores enviados para férias coletivas, e a projeção da associação é que as demissões cheguem a 5.600 em noventa dias.
A contagem tem também uma versão com nomes. Cerca de 730 pessoas desligadas já foram identificadas uma a uma pela Associação de Mulheres da Indústria do Gaming. Sua fundadora, Natalia Nogues, focou no que a estatística esconde: "por trás de cada número há uma pessoa", disse, "e por trás da pessoa geralmente há uma carreira construída durante anos e uma família que dependia desse salário".
A recolocação é o segundo problema e decorre do nível salarial que a indústria tinha. O estudo que a LCA Consultores fez para a associação e o IBJR havia medido um salário médio de R$7.000 (US$1.359) em 2025, com 63,8% do pessoal recebendo acima de quatro salários mínimos. Aqueles que saíram descrevem hoje um mercado tradicional com muito preconceito contra quem passou pelo setor, e dizem que nas poucas entrevistas que conseguem, lhes são oferecidas reduções salariais significativas.
O corte não atingiu igualmente todas as operadoras. Betano e Superbet decidiram manter seus quadros próprios porque consideram difícil repô-los se o mercado reabrir, mas no caso da primeira, o ajuste foi transferido para a cadeia: uma empresa de atendimento telefônico sediada em Curitiba que trabalhava para a marca demitiu 500 pessoas, e a agência Alob Sports, responsável pelas ativações do Flamengo, desligou 34, de acordo com o informado pelo UOL. Seu sócio fundador, Bernardo Pontes, evitou confirmar esse número, embora tenha reconhecido que o corte era inevitável uma vez que o patrocínio foi cancelado. Entre as que mexeram em sua própria folha de pagamento, ex-funcionários da Rivalo falam de cerca de 100 contratos encerrados, algo que Daniel Eskinazi, à frente da operação brasileira, confirmou, esclarecendo que mantém uma equipe mínima caso a atividade seja retomada, enquanto a H2Bet reconheceu 150 desligamentos. A Ana Gaming, que já anunciou novas demissões, deixou seu próprio aviso por escrito: "reverter a medida não elimina os danos já causados".
Nesse cenário, a Kaizen Gaming, dona da Betano, manifestou sua posição por escrito. Em uma publicação no LinkedIn, comprometeu-se a manter os postos de sua equipe brasileira enquanto o Congresso Nacional continuar analisando a Medida Provisória n.º 1.394/2026, com uma fórmula direcionada às suas próprias equipes: "seus empregos estão seguros até o final do processo", diz o texto, que fala dos "companheiros da operação brasileira". O texto aponta que o dano atinge as PMEs de tecnologia, telecomunicações, mídia, serviços e educação, e também a economia do esporte, e lembra que o regime aberto em janeiro de 2025 trazia autoexclusão, limites de aposta e o veto a beneficiários do Bolsa Família, além dos 8,747 bilhões de reais que o Estado arrecadou com jogo online e aposta esportiva no primeiro semestre de 2026.
O argumento de fundo da operadora é de deslocamento e não de arrecadação. Para a dona da Betano, a proibição não apaga a demanda, mas a empurra para plataformas sem autoexclusão, sem limites e sem contribuição fiscal, e a própria associação quantificou esse destino: um levantamento seu conta 30.000 sites de apostas ilegais ativos no país. A publicação encerra com uma definição em três partes: "Apostar envolve riscos reais. Proibir não é proteger. As regras, a fiscalização e a educação, sim", antes de reafirmar que a empresa permanecerá no país a longo prazo. A consigna do meio já saiu do LinkedIn e chegou ao campo. O Flamengo a levou estampada na camisa em 8 de outubro, no empate contra o Santos na Vila Belmiro, e voltou a usá-la em 11 de outubro no clássico do Maracanã, onde o Fluminense, que tem a Superbet como patrocinadora, se juntou com a mesma mensagem.
Os dois números do dia devem ser lidos juntos porque medem a mesma coisa de dois extremos. As 3.500 demissões são o custo verificável e documentado da medida, com nomes, empresas e prazos, enquanto os 30.000 sites ilegais são uma estimativa da associação do setor sobre a oferta que ocupou a lacuna, sem contrapartida oficial que a confirme nem metodologia publicada. O Governo, por sua vez, vem informando ordens de bloqueio por dezenas de milhares nas últimas três semanas, o que ao menos coincide na ordem de magnitude. A assimetria de evidências entre as duas pontas é o que define a discussão parlamentar que começa agora, porque o emprego perdido pode ser auditado nos registros trabalhistas e a migração para sites clandestinos ainda é discutida com medições de parte. Convém adicionar um terceiro dado que nenhuma das duas campanhas menciona e que vai pesar no debate: o prazo. As rescisões são executadas em dias e a recuperação de um posto qualificado leva meses, de modo que, mesmo que o Congresso devolvesse amanhã o marco regulatório, o setor reabriria com parte de seu pessoal já realocado em outras indústrias ou fora do país, e esse custo não se reverte com uma votação.
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