O futebol brasileiro leva a proibição do jogo à campanha

A 29ª rodada do Campeonato Brasileiro foi disputada com os estádios transformados em painéis de protesto. Após a paralisação pela data FIFA, os clubes da Série A coordenaram mensagens nos painéis publicitários de seus campos contra a Medida Provisória 1.394/2026, e a disputa que começou como uma reivindicação setorial acabou entrando na campanha presidencial.
As frases que ocuparam os cartazes apontam todas para o mesmo argumento. Proibir não é proteger, a quem interessa o mercado ilegal, a quem favorece proibir quem cumpre as regras e a demanda não desaparece, apenas muda de direção foram os lemas escolhidos. O Flamengo subiu um degrau a mais e decidiu levar o primeiro deles no peito do uniforme para enfrentar o Santos, transformando a camisa oficial em suporte de campanha.
O raciocínio do setor é que fechar o mercado formal não apaga o consumo. As entidades sustentam que a massa de usuários se desloca para a oferta clandestina, que não tem fiscalização, enquanto o segmento regulado operava com identidade verificada por CPF, com controle de idade, com bloqueio para os beneficiários de programas sociais e com ferramentas de moderação.
Por trás da reivindicação há um número concreto. O patrocínio de casas de apostas representava cerca de 34% do que a Série A faturou comercialmente em 2025, e a proibição forçou a saída dos logotipos dos patrocinadores principais da camisa, com esse fluxo ficando em suspenso de um dia para o outro.
A saída que alguns clubes encontraram passa pela letra da norma. São Paulo e Fluminense apareceram com a Superscore na camisa, uma plataforma de estatísticas que pertence ao mesmo conglomerado empresarial de seu patrocinador original. Como a empresa que se promove não é um operador de jogo, os clubes não descumprem de forma direta. As companhias internacionais do setor, por sua vez, mantêm os convênios econômicos enquanto esperam definições institucionais e, ao mesmo tempo, começaram a fechar preventivamente as ferramentas de interação social de suas plataformas para se ajustarem à norma vigente.
A queda de receitas acabou empurrando o conflito para o terreno partidário. Nos corredores do futebol local, dirigentes de várias entidades, com porta-vozes que chegam ao Corinthians e ao Flamengo entre eles, começaram a discutir se convém fixar uma posição política explícita para o segundo turno. Do outro lado, o candidato opositor Flávio Bolsonaro se aproximou de dirigentes e de torcidas organizadas com a mensagem de que, se chegar à Presidência, vai repor o patrocínio e as operações esportivas e deixará a restrição apenas sobre os cassinos virtuais.
A manobra da Superscore é o dado mais revelador da semana, porque mostra que a proibição pode ser cumprida na forma enquanto o dinheiro continua circulando pelo mesmo grupo empresarial, que é exatamente o argumento com o qual as emendas no Congresso pedem para separar as apostas esportivas do cassino online. Convém ainda precisar o número que circula, porque os 34% correspondem ao faturamento comercial da Série A e não às receitas totais dos clubes, onde o peso do patrocínio de apostas é bem menor. Esta é a segunda escalada dos clubes em duas semanas, depois das ameaças de suspender o torneio, e ao contrário da primeira, esta se dirige ao eleitor e não ao regulador.
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