Chile: 910 funcionários públicos apostaram milhões em cassinos
A integridade da administração pública no Chile enfrenta um questionamento profundo após um recente relatório da Controladoria Geral da República (CGR). O órgão fiscalizador detectou que, entre janeiro de 2024 e junho de 2025, um total de 910 funcionários públicos e municipais realizaram apostas em cassinos, ignorando a proibição legal que recai sobre aqueles que administram ou custodiam fundos estatais. O mais alarmante não é apenas o número de pessoas envolvidas, mas o volume de dinheiro transacionado, que ascende a uma cifra superior a 11,490 bilhões de pesos chilenos, equivalentes a cerca de 12,5 milhões de dólares.
O relatório, denominado CIC N° 20, é o resultado de um cruzamento de dados exaustivo entre as folhas de pagamento de funcionários do Estado e os registros de clientes fornecidos pela Superintendência de Cassinos de Jogo (SCJ). Segundo a normativa vigente, esses funcionários são estritamente proibidos de efetuar apostas em recintos de jogo para evitar conflitos de interesse e garantir o bom uso dos recursos públicos. No entanto, a investigação revelou que 181 desses indivíduos concentram quase a totalidade das apostas, movimentando mais de 96% do dinheiro detectado. Em vários casos particulares, os montantes superam 1 bilhão de pesos, cifras que se mostram impossíveis de justificar com os salários que recebem por seus cargos.
Instituições sob a lupa e o risco dos fundos públicos
A auditoria da Controladoria identificou que os funcionários pertencem a 371 entidades distintas, abrangendo desde o nível operacional até altos cargos diretivos e profissionais. Entre as instituições com maior presença de apostadores em suas fileiras encontram-se Carabineros de Chile, a Força Aérea, a Polícia de Investigações (PDI), a Tesouraria Geral da República e diversas municipalidades em todo o país.
Tomás Valenzuela, acadêmico da Universidade Finis Terrae, advertiu que essa restrição não é arbitrária, mas busca resguardar a transparência institucional. O risco principal reside em que a atividade do jogo pode obscurecer a origem dos fundos, gerando dúvidas razoáveis sobre se o dinheiro apostado provém de economias pessoais ou de uma gestão irregular dos recursos públicos que esses funcionários devem proteger.
Uma resposta institucional enérgica das regiões
Diante da gravidade da descoberta, a Controladoria já começou a remeter os antecedentes à Superintendência de Cassinos de Jogo para que se iniciem os processos sancionatórios correspondentes. Além disso, a informação foi encaminhada ao Ministério Público e ao Conselho de Defesa do Estado para investigar possíveis delitos econômicos ou administrativos. No plano político, o Ministério da Defesa já solicitou relatórios imediatos à Força Aérea (FACh) e à Direção Geral de Aeronáutica Civil (DGAC) para aplicar medidas disciplinares em um prazo máximo de cinco dias.
As reações em nível municipal foram igualmente contundentes:
- Em Puerto Montt: O prefeito Rodrigo Wainraihgt classificou os fatos como de "máxima gravidade" ao detectar que 16 diretores da comuna frequentavam cassinos. Um caso se destaca por ter apostado cerca de 280 milhões de pesos, montante que não tem relação com sua remuneração oficial.
- Em Valdivia: A prefeita Carla Amtmann valorizou a transparência do relatório e anunciou que submeterá a processos disciplinares três funcionários implicados. Amtmann lembrou que sua gestão já destituiu nove pessoas por faltas à probidade no passado.
- Em Quilicura: A prefeita Paulina Bobadilla lamentou que esses comportamentos manchem o trabalho público e solicitou a identificação imediata dos quatro envolvidos em sua área para agir conforme a lei.
A investigação também deixou uma nota de advertência para as empresas operadoras de cassinos. A Controladoria assinalou que, embora os dados provenham dos registros das salas de jogo, foram detectadas possíveis deficiências na informação entregue pelos operadores privados, o que poderia resultar em auditorias adicionais para assegurar que o controle de ingresso aos recintos seja efetivo e cumpra com a lei chilena.
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