Estudo no UK: forte divisão social sobre apostas e publicidade
Um novo relatório publicado no Reino Unido expõe um cenário de marcada polarização social em torno das apostas e, especialmente, da publicidade do setor. O estudo, apresentado pela Coalizão para Acabar com a Publicidade de Jogos de Apostas (CEGA), mostra que as opiniões variam significativamente segundo os valores culturais, o grau de confiança nas instituições e o perfil digital dos cidadãos.
O trabalho, intitulado Acabando com uma sequência de derrotas, segmentou os entrevistados em sete perfis sociais, evidenciando profundas diferenças entre grupos mais céticos e setores com uma visão mais conservadora e patriótica, tanto em relação à expansão do mercado quanto ao nível de regulação desejado.
Baixo apoio à publicidade e maior suporte à regulação
Um dos dados mais relevantes do relatório é o baixo apoio ao aumento da publicidade de apostas no futebol. Apenas 3% dos entrevistados manifestaram-se a favor de ampliar esse tipo de comunicação.
Quanto a uma possível proibição total da publicidade, a opinião pública aparece dividida em partes iguais. Aproximadamente 50% apoia a medida, enquanto os outros 50% se opõem, sem diferenças significativas entre os distintos segmentos sociais analisados.
Apesar dessa divisão, o estudo detecta um consenso mais amplo a favor de uma maior regulação do setor, incluindo impostos mais elevados. O objetivo principal, segundo os entrevistados, é reduzir os danos associados ao jogo, uma postura respaldada inclusive por 58% dos próprios jogadores.
Céticos digitais versus patriotas tradicionais
O relatório identifica os chamados usuários céticos da internet, caracterizados como nativos digitais com baixa confiança nas instituições tradicionais, como o grupo mais favorável às apostas. No extremo oposto estão os patriotas tradicionais, que expressam a maior oposição à expansão do setor e uma forte preocupação pelos seus efeitos sociais.
Essa diferença se reflete em temas concretos. Por exemplo, 29% dos usuários céticos concordariam que os locais de apostas funcionem 24 horas, contra apenas 4% dos patriotas tradicionais.
A lacuna também é clara em relação aos limites de depósito. Enquanto 64% dos patriotas defendem restrições estritas, o apoio cai para 30% entre os céticos.
Loot boxes, jovens e jogo online
O estudo também aborda a percepção sobre as loot boxes em videogames, um tema cada vez mais presente no debate regulatório. Apenas 16% dos patriotas tradicionais considera que não constituem uma forma de aposta, contra 34% dos usuários céticos.
Quanto à legalidade do jogo online, 54% dos entrevistados acredita que deveria continuar sendo legal, enquanto 31% opina que deveria ser proibido, o que reflete uma maioria a favor de manter a atividade sob um marco regulatório mais estrito.
De forma notável, o relatório inclui como recomendação a redução das barreiras de entrada ao jogo online, especialmente para os jovens, uma conclusão que contrasta com o amplo apoio a maiores controles e limitações.
Regulação, probabilidades e mercado ilegal
Outro ponto analisado foi o impacto de uma regulação mais estrita sobre as probabilidades e os bônus. Segundo o relatório, 49% dos entrevistados afirmou que a redução das probabilidades influenciaria seu comportamento, enquanto 42% indicou que não seria afetado.
Esses resultados questionam um dos principais argumentos do setor, que sustenta que um aumento de impostos e restrições empurraria os jogadores para plataformas offshore. De acordo com o estudo, muitos usuários não parecem estar altamente condicionados pela redução de incentivos promocionais.
Pressão política e debate público
A partir desses resultados, a CEGA reforçou seu chamado para endurecer as restrições publicitárias e aumentar a pressão política sobre o governo britânico. Como parte dessa estratégia, a coalizão somou o apoio do ator Christopher Eccleston, reconhecido por seu papel na série Doctor Who, que participou de uma campanha pública contra a publicidade das apostas.
O estudo foi elaborado junto à organização More in Common, fundada em 2016 com o objetivo de analisar divisões sociais e fomentar o diálogo em contextos de polarização. Segundo a entidade, o relatório parte da premissa de que a sociedade britânica compartilha mais pontos em comum do que sugerem os debates públicos, mesmo em temas tão sensíveis como o jogo.
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